MMA: Os riscos de uma luta que gera lucro para poucos

MMA: Os riscos de uma luta que gera lucro para poucos, às custas da glamorização da violência, da agressão física e da degradação do ser humano. 

Por José Mentor*

No início de janeiro, mais um lutador de MMA sofreu uma fratura grave, durante uma disputa. Na terceira luta como profissional, Jonathan King quebrou a canela quando tentou acertar um chute no rival. O acidente ocorreu no American Kombat Alliance 6, no estado de Louisiana, nos Estados Unidos.

King é só mais um numa estatística tenebrosa. Assim como ocorreu com Anderson Silva, em 2013, foi mais um caso de tíbia e fíbula quebradas durante um espetáculo de MMA. O problema é que esse golpe, usado corriqueiramente no MMA para ferir o adversário, muitas vezes resulta em um grave ferimento para o agressor.

Ou seja, o golpe é usado contra o adversário, mas é quem ataca que muitas vezes acaba ferido, como ocorreu na luta de Jonathan King. A cena do acidente e a exibição da fratura exposta causam perplexidade. A imagem do lutador quebrando a perna no momento do golpe é realmente chocante e foi exibida em um portal de notícias sobre esporte.

Golpes como esses não poderiam ser tratados como uma fatalidade, já que se repetem muitas vezes. Na verdade, deveriam ser proibidos, porque ferem gravemente ou o agressor, ou o agredido.

Aliás, como se não bastasse a violência que vivemos diariamente no País, temos, também, que conviver com esse tipo de atrocidade difundida pelos meios de comunicação, sobretudo pela televisão, uma concessão pública que deveria usar a programação para informar e ajudar a formar cidadãos e cidadãs não violentos.

Outro fato difícil de entender é o Brasil proibir a rinha de animais, mas permitir uma rinha de humanos. Nem uma, nem outra! O MMA não poderia nem mesmo ser considerado um esporte. Pela definição legal, prevista na Lei Pelé, o esporte tem como obrigação preservar a integridade física e psíquica do atleta.

E essa luta não resguarda o atleta. Pelo contrário, a degradação humana é oferecida como grande atrativo para os telespectadores. E, para o delírio do público, quanto mais sangue melhor.

Não faltam golpes violentíssimos como cotoveladas, joelhadas, socos e pontapés no corpo todo, sobretudo na cabeça. Todos os movimentos são desferidos com altíssimo grau de violência e praticamente nenhum tipo de proteção para quem sofre as pancadas.

MMA também não pode ser considerado arte marcial. As artes marciais são lutas – algumas, milenares – que têm como principais características o desenvolvimento espiritual, filosófico, físico e técnico dos praticantes, além de disciplina, autocontrole, autodefesa e um princípio de não agressão. MMA é agressão pura!

Apesar de todos os riscos, ainda assim, essa é a luta que mais cresce no mundo e onde os maiores volumes de recursos financeiros circulam. No entanto, os lucros são para poucos. Boa parte dos lutadores que se jogam nessa selvageria não chega nem perto de experimentar o gostinho do sucesso.

Em vez disso, se afundam cada vez mais em uma vida pautada por treinos excessivos e dietas restritivas associadas a técnicas de imersão em banheiras de água quente –método muito usado para acelerar a perda de peso e que pode matar. Isso sem contar as lutas em si, que muitas vezes causam sequelas definitivas em seus praticantes, como traumatismos cranianos com danos ao cérebro, a perda permanente dos movimentos e até a morte.

 

* José Mentor, 70 anos, é advogado, ex-vereador, ex-deputado estadual e federal pelo PT-SP e autor do PL 5.534/2009, que proíbe a exibição do MMA na televisão

Foto: Divulgação